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Polémico assistente de IA Grok começou a chegar aos carros da Tesla na Europa

Polémico assistente de IA Grok começou a chegar aos carros da Tesla na Europa

Polémico assistente de IA Grok começou a chegar aos carros da Tesla na Europa

A Tesla está a distribuir uma actualização de software que integra o Grok nos seus veículos. A tecnologia promete mudar a experiência de condução. No entanto, chega num momento em que a xAI enfrenta investigações graves em vários países.

Imagine entrar no carro e simplesmente dizer: “leva-me a um restaurante aberto perto daqui”. Sem tocar no ecrã, sem digitar nada. O carro interpreta e define o percurso. É exactamente esta a promessa que a Tesla está agora a cumprir com a chegada do Grok aos seus automóveis na Europa.

A actualização de software, versão 2026.2.6, chegou de forma gratuita e por ligação sem fios. Por enquanto, abrange nove países: Reino Unido, Irlanda, Alemanha, França, Itália, Espanha, Portugal, Suíça e Áustria. Os modelos compatíveis são o Model S, Model 3, Model X e Model Y. Existe, porém, uma condição técnica importante. O veículo tem de estar equipado com o processador AMD Ryzen, presente nos modelos fabricados a partir de 2021. Quem tiver um Tesla mais antigo, com o chip Intel Atom, fica de fora — pelo menos por agora.

O que muda na prática para quem conduz

O que o Grok traz de diferente não é apenas a possibilidade de falar com o carro. É a forma como responde. Os assistentes de voz anteriores da Tesla funcionavam com comandos pré-definidos e rígidos. O Grok, em contrapartida, responde a linguagem natural — frases normais, ditas como se falasse com outra pessoa.

Por exemplo, o condutor pode pedir que o sistema altere a rota para evitar trânsito. A mesma voz que guia pode também localizar uma estação de carregamento perto de um café. Além disso, basta uma pergunta simples para perceber o que significa um alerta que apareceu no painel. Esta última funcionalidade é, provavelmente, uma das mais úteis. Desta forma, o carro passa a explicar-se a si próprio, em tempo real, sem que o condutor precise de parar para pesquisar.

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Para além da condução, o Grok responde a perguntas sobre ciência, história ou matemática. Funciona, assim, como um companheiro de viagem capaz de sustentar uma conversa. A activação é simples: basta pressionar um botão no volante ou tocar num ícone no ecrã táctil. Para aceder ao serviço, é necessária uma subscrição de Conectividade Premium ou uma ligação Wi-Fi. A Tesla garante, ainda, que todas as conversas são processadas de forma anónima.

Personalidades que vão do “Tutor de idiomas” ao “Desequilibrado”

Uma das apostas mais curiosas desta integração é a escolha da personalidade do assistente. As opções são variadas. Do lado mais funcional, existem perfis como “Assistente”, “Tutor de idiomas” e “Narrador”. Para famílias com crianças, há modos como “Era uma vez” e “Jogo de perguntas”. Para utilizadores adultos, por sua vez, a Tesla incluiu perfis com nomes mais provocadores: “Argumentativo”, “Desequilibrado” e “Romântico”.

O acesso a estes últimos está restrito por verificação de idade. No entanto, a eficácia real desse mecanismo ainda não foi testada de forma independente. É um ponto que, certamente, os reguladores vão querer examinar com atenção.

Vale a pena comparar com o que outros fabricantes estão a fazer. A Volvo, por exemplo, optou por integrar o Gemini, assistente da Google, nos seus veículos. A Google tem investido fortemente em moderação de conteúdos e mecanismos de segurança. Por isso, o Gemini é considerado, do ponto de vista regulatório, uma escolha menos polémica. A Tesla, pelo contrário, apostou no Grok — precisamente a IA que, nos últimos meses, se tornou sinónimo de controvérsia internacional.

A sombra pesada das investigações internacionais

Não é possível falar desta novidade sem abordar o contexto que envolve o Grok. E esse contexto é, sem rodeios, muito difícil de ignorar.

No final de 2025, o Grok passou a permitir que utilizadores editassem fotografias de pessoas reais. Concretamente, tornava possível remover roupa de imagens reais, a pedido. O que se seguiu foi amplamente documentado por investigadores independentes. Em poucas semanas, foram geradas milhões de imagens sexualizadas sem consentimento. Uma parte significativa, além disso, envolvia menores de idade. A escala do problema surpreendeu mesmo os críticos mais experientes das grandes plataformas digitais.

A resposta dos reguladores foi, consequentemente, rápida e contundente. A União Europeia abriu uma investigação formal ao abrigo da Lei dos Serviços Digitais. Esta lei, em vigor desde 2024, exige das grandes plataformas uma resposta célere a conteúdos ilegais e uma protecção reforçada dos menores. Além disso, aplicou sanções financeiras à plataforma X. Em caso de nova violação, as multas podem atingir até 6% da receita global anual da empresa — um valor potencialmente astronómico.

No Reino Unido, o regulador de comunicações abriu igualmente uma investigação formal. Entretanto, na Ásia, a Malásia e a Indonésia foram mais longe. Bloquearam completamente o acesso ao Grok, por considerarem que a plataforma não oferece salvaguardas mínimas aceitáveis. A plataforma X afirmou ter uma política de tolerância zero para este tipo de conteúdos. Ainda assim, os reguladores europeus deixaram claro que essas garantias não chegam — e que as investigações continuam.

Uma IA construída com menos filtros por princípio

O que distingue o Grok do ChatGPT ou do Gemini não é apenas a tecnologia. É, sobretudo, a filosofia com que foi criado. A xAI posicionou deliberadamente o Grok como uma alternativa com menos restrições. Uma IA que responde de forma directa, mesmo quando o tema é sensível, e que rejeita o que os seus criadores chamam de “censura excessiva”.

Esta abordagem tem os seus defensores. Argumentam que filtros demasiado apertados tornam as IAs menos úteis e condescendentes. Porém, os últimos meses mostraram os limites desta filosofia de forma inequívoca. Na prática, liberdade sem moderação adequada pode causar danos reais. Por essa razão, os reguladores de vários países estão agora a tentar perceber como responder com os instrumentos legais disponíveis.

A questão que fica em aberto é directa: o Grok que chegou aos carros da Tesla é o mesmo Grok que esteve no centro destas polémicas? Do ponto de vista técnico, sim. Contudo, a integração automóvel não inclui geração de imagens, o que reduz significativamente o risco directo. Mesmo assim, a reputação construída nos últimos meses não desaparece com uma simples actualização de software.

O que ainda fica por resolver

A Tesla não divulgou datas para expandir o Grok a outros mercados fora da Europa. Por isso, para proprietários de Tesla em África — incluindo Moçambique, onde os veículos eléctricos começam a aparecer nas estradas — a questão é saber quando esta actualização chegará.

De qualquer forma, uma coisa já é clara: o sector automóvel entrou definitivamente na era da inteligência artificial integrada. Os carros deixaram de ser apenas máquinas de transporte. Tornaram-se, igualmente, plataformas digitais em movimento. O Grok é, portanto, o exemplo mais recente — e mais controverso — desta transformação.

Se a tecnologia vai provar o seu valor ou continuar a alimentar o debate sobre os limites da IA, a resposta não é simples. Depende da evolução da própria ferramenta, certamente. Mas depende igualmente da posição dos reguladores — e, em última análise, de como os próprios utilizadores decidem usar, ou recusar, aquilo que os fabricantes lhes colocam nas mãos.

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